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Empreendedorismo
 

Jorge Horta Alves
Managing Director
SHL People Solutions Portugal
jorge.alves@shlportugal.pt

Artigo publicado na revista Pessoal, Março de 2009, pp 18/19.
Este texto respeita o novo acordo ortográfico.

Existe uma grande diversidade de conceções acerca do que é o empreendedorismo e acerca da distinção entre empreendedorismo e criação e gestão de pequenas e médias empresas. Um tema de interesse permanente tem consistido em saber se certas características, ou traços, distinguem os criadores de negócios das outras pessoas. Uma literatura abundante tem analisado temas como a personalidade, a motivação, a origem demográfica, as aspirações, as competências, o género e as crenças culturais. Na maior parte dos casos, os estudos de campo não conseguiram apoiar a hipótese de que os empreendedores são sistematicamente diferentes das outras pessoas.

No entanto, a análise do empreendedorismo tem grande interesse para a gestão estratégica. Alguns consideram mesmo que o empreendedorismo é essencial para o bem-estar social e económico porque as iniciativas novas são uma fonte dominante para a criação de empregos, para a inovação no mercado e para o crescimento económico. Estamos de acordo.

A questão do empreendedorismo centra-se, portanto, em quais são as iniciativas que impulsionam a mudança económica, aumentam a produtividade e criam riqueza. Muitas vezes a criação de empregos e de riqueza não é considerada empreendedorismo e, contraditoriamente, considera-se empreendedor o criador de uma nova pequena empresa sem qualquer influência na mudança económica. A verdade é que as novas empresas com eventual importância para a economia são uma parte minúscula de todas as iniciativas novas.

De acordo com o relatório sobre ‘Demografia de empresas, fluxos de emprego e mobilidade dos trabalhadores em Portugal’ (1) publicado pelo Gabinete de Estratégia e Planeamento (GEP) do Ministério do Trabalho e Segurança Social (MTSS), havia, em 2006, 344.024 empresas registadas no Sistema de Informação Longitudinal de Empresas, Estabelecimentos e Trabalhadores (SILEET) elaborado a partir da estatística anual ‘Quadros de Pessoal’. Em relação a 2001, este número representa um acréscimo de 60.000 empresas, ou seja, mais 21%.

São números interessantes, mas será que refletem o espírito empreendedor dos criadores das novas empresas? Na realidade, entre 2001 e 2006 foram criadas 210.387 empresas e encerradas cerca de 188.943, o que significa que o saldo, neste período, anda à volta de 20.000, ou seja, 10%. Por outro lado, estamos a considerar nestes números as empresas criadas antes de 2001 e que foram encerradas no período considerado.

No que respeita às variações líquidas de postos de trabalho criados e extintos, no mesmo período de cinco anos, destaca-se que estas foram sempre positivas nas empresas com menos de 10 pessoas, enquanto nos escalões de 50 a 99 e de 500 ou mais pessoas se verificou o contrário. É nas empresas de menor dimensão, com menos de 10 pessoas ao serviço, que as taxas de rotação, quer do emprego quer das próprias empresas, se apresentam mais elevadas, o que se compreende atendendo ao seu ciclo de vida, em geral curto.

Uma análise igualmente interessante é a da sobrevivência das empresas num período mais alargado de 10 anos. Segundo o referido relatório do GEP, foram criadas, em 1997, 26.806 empresas com um total de 100.969 postos de trabalho. Deste conjunto de empresas, sobreviveram, até 2006, 9881 unidades, ou seja, 36,9% do número inicial. Em termos de volume de emprego, verifica-se o crescimento da dimensão média das empresas sobreviventes, registando-se um total de 85.012 postos de trabalho em 2006, embora este número seja inferior em 15,8% ao registado no primeiro ano de vida da geração das empresas nascidas em 1997. Verifica-se igualmente que a capacidade de sobrevivência é maior nas empresas de maior dimensão. Estes resultados parecem discrepantes em relação aos anteriores e, de facto, não coincidem, porque a estatística ‘Quadros de Pessoal’ sofreu alterações, em alguns anos, com a entrada de novas empresas, devido principalmente à informatização.

Estudos feitos em diversos países confirmam que são poucas as pequenas e médias empresas que sobrevivem de modo a provocarem transformações económicas. Dizendo de outra maneira, as firmas que crescem fortemente e criam riqueza abundante são raras e situam-se no extremo direito de uma longa cauda que estreita com cada vez menos empresas. O efeito de criação de riqueza do empreendedorismo ocorre, assim, sob condições de grande incerteza em que um número alto de negócios é iniciado, a maior parte não cresce e muito poucos dão uma contribuição elevada para a sociedade.

É evidente que nas centenas de milhar de empresas existentes em Portugal haverá também centenas de milhar de empreendedores. Isso é indubitável. O que é duvidoso é que todos os criadores de empresas sejam empreendedores. Para prestigiar o empreendedorismo, temos de o distinguir claramente do delírio dos criadores de empresas para a falência, ou do oportunismo dos caçadores de fundos, que os desbaratam sem resultados visíveis, para além das suas vantagens pessoais. Estes, entre outros.

É, pois, necessário distinguir empreendedorismo da criação e gestão de pequenas e médias empresas, porque a realidade mostra que a maior parte destas é apenas fugazmente criadora de riqueza e de empregos.

Um paradigma possível para analisar o processo empreendedor é o raciocínio realista aplicado à escolha dos investimentos financeiros, também aplicado a problemas importantes de estratégia. Os novos negócios são análogos às aplicações financeiras. São investimentos em activos reais que preservam o direito de tomar decisões, quando necessárias, no futuro. Se as condições mostrarem que não são favoráveis, os recursos podem ser deslocados e voltados a aplicar noutro sítio, com prejuízo apenas da quantia perdida no negócio, até ao momento.

Esta semelhança dos novos negócios com os investimentos financeiros é consistente com os aspetos observados no processo empreendedor. Rita Gunther McGrath, Professora Associada da Columbia Business School, trabalha frequentemente com equipas de gestão em numerosas empresas que pretendem desenvolver a sua capacidade para fazer crescer o negócio. Segundo esta investigadora (2), o valor dos investimentos bolsistas aumenta quando a incerteza aumenta, porque a potencial desvantagem de perda se mantém, enquanto a vantagem de distribuição de resultados aumenta. Do mesmo modo, quando há incerteza, os negócios novos podem ser altamente valorizados. Tenha-se em consideração as ações da internet no período áureo. O elevado potencial de subida da área atraiu o investimento, mesmo quando muitas das firmas em campo foram confrontadas com uma elevada possibilidade de falhar, e muitas, de facto, falharam. Não importa – como nas aplicações financeiras, o fracasso de alguns negócios é, não só, aceitável, mas também esperado. Nem tudo pode correr bem, nem todos os negócios merecem sobreviver a longo prazo. Em suma, para Rita Gunther McGrath, tal como nos investimentos financeiros, o retorno do investimento nas novas iniciativas empresariais é assimétrico. São raros os negócios novos que geram grandes resultados.

Sabemos bem que os tempos recentes são outros e que os investimentos financeiros correm não só o risco do resultado do negócio, mas também e principalmente, o risco da ética dos intervenientes. Vale, no entanto, a pena correr outro risco, o de utilizar este paradigma para compreender um pouco melhor o processo empreendedor. A análise deste processo fica para uma próxima oportunidade, como fica também uma reflexão sobre o “intrapreendedorismo”, sobre as competências do empreendedor ou sobre o empreendedorismo e a inovação nas organizações.

(1) From www.dgeep.mtss.gov.pt/estatistica/demografia/demo06.pdf

(2) McGrath, Rita (2000). The Entrepreneurial Mindset: Strategies for Continuously Creating Opportunity in an Age of Uncertainty. Boston, Massachusetts: Harvard Business School Press.

16-03-2009 0:00  
 
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