Da Orientação Vocacional ao Aconselhamento da Carreira

Inês Quintela
Psychology Intern
 
PauloLeitão
Consultant
 
SHLPortugal

Durante muitos séculos, a profissão de cada geração era em muito semelhante à dos seus familiares diretos. No entanto, à medida que o trabalho se tornou mais tecnológico e especializado e as sociedades evoluíram, as pessoas passaram a ser confrontadas com possibilidades infindáveis para o seu futuro. Numa sociedade onde a ciência e a tecnologia são encaradas como uma possibilidade de acesso a novas oportunidades de vida, a orientação vocacional especializada ganha um enorme campo de atuação e é fulcral perceber como é que hoje em dia é tão ou ainda mais importante este tipo de orientação.

A noção de desenvolvimento da carreira surge quando Frank Parsons (1909) lança as bases concetuais da Psicologia Vocacional. O mesmo formulou um modelo de relação pessoa/profissão com base no pressuposto de que deveria haver um ajustamento entre as características do trabalho e as da pessoa. Assim sendo, era essencial cada pessoa ter consciência das suas aptidões e em funções delas arranjar um emprego que fosse adequado à sua personalidade. Com isto, a escolha profissional passa a estar dependente do conhecimento preciso que o sujeito tem de si próprio, do conhecimento completo das especificidades do trabalho e da capacidade de fazer uma boa junção destes dois pontos sendo vista como um comportamento único e estático na vida do mesmo.

Por volta dos anos 50 do século passado, a orientação passa por uma fase de expansão e o termo orientação vocacional foi-se desenvolvendo graças ao aparecimento de associações que afirmam e realçam o trabalho do orientador. Um dos autores que permitiu que a orientação fosse vista de forma evolutiva foi Donald Super (1957). O mesmo efetuou um estudo para compreender o porquê dos jovens escolherem um trabalho particular, em vez de tantos outros, e como é que os mesmos se acomodam com a transição da escola para o trabalho e mantêm a sua posição vocacional. Esta visão é contrastante com a ideia dominante até ao momento de que a escolha profissional era considerada um acontecimento único e estático na nossa vida. Na perspetiva desenvolvimentista de Super, o conceito de carreira assume um papel central, sendo definido como um conjunto de posições ocupadas por uma pessoa, ao longo do tempo. Aqui as escolhas vocacionais deixam de ser vistas simplesmente como a escolha de uma profissão num determinado momento da vida e, passam a ser consideradas um processo contínuo que ocorre ao longo da vida do sujeito e em diferentes contextos – life-spam e life space.  

Já nos anos 60, o termo orientação vocacional foi redefinido graças ao aparecimento de técnicas psicométricas e de desenvolvimento da personalidade mais robustas. Foi através do modelo de Interesses Vocacionais de John Holland (1997)
que se verificou a importância da obtenção de um leque variado de disposições da personalidade para que posteriormente as mesmas sejam relacionadas com os papéis de trabalho. Posto isto, Holland referiu que o interesse vocacional é uma expressão da personalidade de alguém, e que pode ser conceptualizado em seis tipologias diferentes: Realista (R), Intelectual (I), Artístico (A), Social (S), Empreendedor (E) e Convencional (C), especificados de seguida.



Fig.1 Modelo de Interesses Vocacionais de Holland
(RIASEC).

Sendo assim, este modelo oferece uma estrutura prática que permite identificar o conteúdo de uma personalidade vocacional, ou seja, os traços de personalidade da pessoa e a inclinação profissional da mesma, assim como os esforços de auto-organização dos seus interesses, valores e aptidões para lidar com os papéis de vida. Isto é, é como um meio de descrição da componente da carreira referente ao sujeito, em termos das suas preferências individuais.

Por influência de diversos autores, a escolha vocacional deixou de ser encarada como pontual e passou a ter uma dimensão mais desenvolvimentista. Atualmente, a orientação vocacional baseia-se em ajudar a pessoa a entrar em contacto profundo consigo mesma e com a realidade na qual está inserida. Consequentemente, as práticas mais atuais no que toca ao aconselhamento de carreira já não se limitam apenas à transição da escola para o mundo do trabalho, mas sim à orientação ao longo da vida. Vejamos que a escolha vocacional/profissional caracteriza-se por ser, talvez, uma das tarefas mais importantes na fase da adolescência bem como do jovem adulto, sendo comum observar os adolescentes e os jovens, indecisos perante a tomada de decisão que têm de efetuar e com dificuldade em comprometer-se com uma profissão específica. Tendo isto em conta, é fulcral que tanto os jovens a acabar o 9º ano como os adultos com vontade de redefinir os
seus projetos de carreira, sejam acompanhados no sentido de se tornarem mais capazes para fazer um melhor planeamento dos seus percursos de vida, escolares e profissionais, conseguindo adequar-se às contingências ambientais.

Esta orientação tem necessariamente de ser feita por duas vias: uma delas é através do conhecimento das nossas aptidões e estilos do nosso comportamento, utilizando instrumentos de avaliação psicológica, como são os Testes de Aptidões Verify, os
Questionários de Personalidade, como o OPQ32, de Interesses e de Motivação, e Inventários como o de Exploração da Carreira, construídos pela SHL. Com a utilização dos mesmos, os sujeitos têm uma visão mais integrada e complexa das suas capacidades, de modo a poderem tomar a decisão mais adequada para si mesmos. Mais ainda, a outra via da orientação vocacional surge através de uma visão mais desenvolvimentista e individualizada, como é o caso das entrevistas de orientação e discussão, de reuniões onde se partilha informações sobre a carreira e, para finalizar, de relatórios de aconselhamento de carreira onde são integrados todos os dados críticos ao longo do processo. É por isso fundamental proceder a este tipo de aconselhamento uma vez que, quem a ele recorre, é desde o primeiro dia acompanhado por profissionais com uma vasta experiência na aplicação deste tipo de instrumentos, sendo conhecidos como detentores de uma visão do mercado mais ampla e realista, que ajudarão a pessoa a escolher a sua carreira profissional ou a redirecionar-se no mercado de trabalho.

Referências Bibliográficas
Parsons, F. (1909). Choosing a vocation. Boston: Houghton Mifflin.
Super, D. E. (1957). The psychology of careers. New York: Harper.
Holland, J. L. (1997). Making vocational choices: A theory of vocational personalities and work environments (3.ª ed.). Odessa, FL: Psychological Assessment Resources.


Março 2016
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